Episódio 027 · Tecnologia & Ambiente

A inteligência artificial tem sede — Quanta água existe por trás de uma resposta?

Uma resposta aparece em segundos, mas depende de servidores, eletricidade, calor e sistemas de resfriamento. A pegada hídrica muda conforme local, tecnologia e escala.

Disponível10 set · 19h3012 min de leitura
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O caso

Além do documentário

Uma resposta de inteligência artificial aparece em segundos, mas o cálculo acontece em prédios reais: data centers com servidores, eletricidade e sistemas de resfriamento. Parte da água pode ser consumida na própria instalação e outra parte na geração da energia usada por ela.

Este dossiê explica por que não existe um número universal de litros por pergunta. Tecnologia de resfriamento, clima, localização, matriz elétrica, eficiência dos equipamentos e escala alteram a pegada hídrica — e transformam transparência e planejamento em decisões essenciais.

Infraestrutura física

A nuvem tem endereço, servidores e sistemas de resfriamento

A inteligência artificial depende de data centers: instalações com servidores, rede, armazenamento, bombas, ventiladores e equipamentos elétricos. O cálculo vira calor, e retirar esse calor é indispensável para manter a operação.

A presença de água depende do projeto. Há torres evaporativas, circuitos fechados, resfriamento por ar e líquido próximo aos chips. Nenhuma dessas soluções descreve sozinha todos os data centers.

Duas contas

Consumo direto e indireto não acontecem necessariamente no mesmo lugar

O consumo direto ocorre na instalação, principalmente quando parte da água evapora para remover calor. O indireto pode acontecer na geração da eletricidade usada pelos equipamentos.

Retirada e consumo também não são sinônimos. A retirada mede o volume removido; o consumo representa a parcela que evapora, é incorporada ou deixa de ficar imediatamente disponível no mesmo sistema.

Falsa precisão

Por que não existe um número universal por pergunta

Estimar água por resposta exige saber modelo, hardware, utilização, clima, resfriamento, local e matriz elétrica. Uma revisão do LBNL encontrou variação superior a 10.000 vezes entre cargas computacionais e seus contextos.

Um número por prompt pode ser útil dentro de condições definidas. Fora delas, transforma uma estimativa localizada em regra universal e esconde as variáveis que mais mudam o resultado.

Escala

Dados do setor não podem ser atribuídos integralmente à IA

O LBNL estimou que todos os data centers dos Estados Unidos consumiram 176 TWh em 2023, cerca de 66 bilhões de litros diretamente e quase 800 bilhões indiretamente pela eletricidade. Esses números abrangem o setor, não somente IA.

A IEA estimou aproximadamente 485 TWh globais para data centers em 2025 e cerca de 950 TWh em 2030 no cenário central. É uma projeção sujeita a eficiência, demanda, preço e limites de infraestrutura.

Impacto local

The Dalles mostrou que transparência também faz parte da infraestrutura

Em The Dalles, o data center do Google respondeu por 29% do abastecimento municipal em 2021. A cidade declarou depois que desenvolvedores financiaram poços, reservatórios e tubulações e que não receberam tarifa subsidiada.

Durante anos, os volumes estiveram sob confidencialidade comercial. Sem dados acessíveis, moradores não conseguiam avaliar a demanda. Planejamento hídrico exige medir e informar antes que a expansão encontre um período de escassez.

Decisão pública

Reduzir impacto exige olhar para lugar, tecnologia e energia ao mesmo tempo

Circuito fechado, reúso, ar externo e equipamentos mais eficientes podem reduzir consumo direto. Porém, uma solução que aumenta demanda elétrica pode deslocar parte do impacto para a geração de energia.

A decisão responsável compara disponibilidade local, fonte da água, estação do ano, matriz elétrica e transparência. Eficiência por tarefa importa, mas o crescimento total do uso pode superar os ganhos obtidos por resposta.

Pontos verificados

O que os documentos mostram

  • Data centers atendem muitas cargas digitais; nem toda a infraestrutura existe exclusivamente para inteligência artificial.
  • Retirada é o volume removido de uma fonte; consumo é a parcela que não fica imediatamente disponível no mesmo sistema.
  • O consumo direto ocorre na instalação, enquanto o indireto pode estar associado à eletricidade.
  • Uma revisão do Lawrence Berkeley National Laboratory encontrou variação superior a 10.000 vezes no consumo por carga computacional.
  • Em 2023, todos os data centers dos Estados Unidos consumiram 176 TWh de eletricidade e cerca de 66 bilhões de litros de água diretamente.
  • O mesmo relatório estimou quase 800 bilhões de litros de consumo indireto associados à eletricidade em 2023.
  • A Agência Internacional de Energia estimou cerca de 485 TWh globais para data centers em 2025 e aproximadamente 950 TWh em 2030 no cenário central.
  • Em The Dalles, Oregon, o data center do Google respondeu por 29% do abastecimento municipal em 2021.
  • Circuitos fechados, reúso de água, resfriamento por ar e localização adequada podem reduzir impactos diretos, mas não eliminam automaticamente a pegada indireta.
  • Reposição hídrica não apaga, por si só, um impacto ocorrido em outra bacia ou em outro momento.

Cronologia

Como a história se desenrolou

2021

O caso de The Dalles registrou o data center do Google como 29% do abastecimento municipal naquele ano.

2023

Data centers dos Estados Unidos consumiram 176 TWh e aproximadamente 66 bilhões de litros diretamente.

2024

O LBNL publicou a estimativa nacional de energia e água para data centers dos Estados Unidos.

2025

Uma revisão do LBNL mostrou que o consumo por carga pode variar mais de 10.000 vezes.

2025

A Microsoft informou WUE médio de 0,30 L/kWh em seus data centers no ano fiscal de 2024.

2025

O planejamento britânico passou a tratar água, localização, circuito fechado e reúso como fatores prévios.

2026

A IEA atualizou o cenário global e estimou cerca de 950 TWh para data centers em 2030.

10 set. 2026

O Código Oculto publicou o documentário e abriu esta leitura aprofundada.

Roteiro narrado do documentário

Uma resposta que aparece em segundos pode estar ligada ao consumo de água a quilômetros de distância. A pergunta viaja até um data center, onde servidores fazem bilhões de operações, usam eletricidade, geram calor e precisam permanecer numa temperatura segura. A água entra na cadeia de formas diferentes. Alguns sistemas removem calor por evaporação; outros usam ar, líquidos técnicos ou circuitos fechados. Isso não significa que água potável atravesse todos os processadores, nem que instalações semelhantes tenham o mesmo resultado hídrico. Também existe uma conta indireta. Usinas térmicas e nucleares podem usar água no resfriamento, e reservatórios hidrelétricos perdem água por evaporação. Por isso, uma instalação que consome pouco dentro do prédio ainda pode depender de eletricidade com pegada hídrica relevante. Não existe um copo universal escondido em cada pergunta. Uma revisão do Lawrence Berkeley National Laboratory encontrou variações superiores a 10.000 vezes entre cargas e contextos. Eficiência do servidor, utilização, clima, resfriamento, infraestrutura e rede elétrica mudavam o resultado. A preocupação continua legítima quando bilhões de operações formam uma infraestrutura gigantesca. Em 2023, todos os data centers dos Estados Unidos — não apenas os de IA — consumiram 176 TWh, cerca de 66 bilhões de litros diretamente e quase 800 bilhões indiretamente via eletricidade. Em The Dalles, Oregon, um relatório oficial informou que o data center do Google respondeu por 29% do abastecimento municipal em 2021. O município também afirmou que desenvolvedores financiaram infraestrutura. O conflito envolveu litros, mas também confidencialidade, planejamento e confiança pública. Existem caminhos para reduzir impactos: circuito fechado, água reciclada, ar externo, chips mais eficientes e localização compatível com a disponibilidade hídrica. Cada opção possui limites e pode trocar consumo direto por demanda elétrica. A pergunta decisiva não é apenas quanta água a IA usa. É onde, quando, de qual fonte, com qual tecnologia e com quais dados verificáveis. A resposta está numa cadeia de servidores, calor, refrigeração, eletricidade e decisões públicas e privadas.

Fontes primárias e institucionais

Continue a investigação

  1. LBNL — 2024 United States Data Center Energy Usage Report↗
  2. LBNL — Water use of data center workloads↗
  3. International Energy Agency — Key Questions on Energy and AI↗
  4. USGS — Water-use terminology↗
  5. Microsoft — Environmental Sustainability Report↗
  6. Oregon — 2024 Biennial Energy Report↗
  7. Governo do Reino Unido — National Framework for Water Resources 2025↗